O carro elétrico mais barato de Portugal pode custar menos de 6 mil euros a quem tiver direito ao novo apoio do Estado. Fizemos as contas com o preço oficial do Dacia Spring e com as regras anunciadas pelo Governo. Mas há um paradoxo que está a gerar polémica: quem ganha o salário mínimo pode ficar de fora.

O que é o novo apoio
O Ministério do Ambiente e Energia, liderado por Maria da Graça Carvalho, detalhou esta semana um novo incentivo à compra de carros elétricos dirigido a famílias com menos rendimentos. As regras conhecidas até agora:
- Apoio de 80% do preço do carro sem IVA, com um teto de 15.000 euros;
- o teto sobe para 16.000 euros se for abatido um carro a combustão (o abate não é obrigatório);
- apoio adicional até 1.000 euros (sem IVA) para um posto de carregamento;
- só 20.000 carros serão apoiados;
- quem pode candidatar-se: beneficiários da tarifa social de energia elétrica ou agregados com rendimento abaixo de 80% do rendimento mediano, ou seja, 11.572 euros por ano.
Segundo o ECO, o universo elegível chega a cerca de 1,58 milhões de agregados, para apenas 20 mil apoios. Ainda não há datas de candidatura nem fonte de financiamento anunciadas. Em paralelo, o Governo prevê 50 milhões de euros para o incentivo geral à compra de elétricos, aberto a toda a população.
Fizemos as contas: o Spring por 5.908 euros
Consultámos hoje o configurador oficial da Dacia Portugal. A versão de entrada, o Spring Essential Electric 70, custa 16.900 euros, dos quais 13.740 euros são o preço sem IVA. Aplicando a regra dos 80%:
| Dacia Spring Essential Electric 70 | Valor |
|---|---|
| Preço total (com IVA) | 16.900 € |
| Preço sem IVA | 13.740 € |
| Apoio do Estado (80% do preço sem IVA) | 10.992 € |
| IVA, pago pelo comprador | 3.160 € |
| Parte não apoiada (20% sem IVA) | 2.748 € |
| O comprador paga | 5.908 € |
Como o apoio fica abaixo do teto de 15.000 euros, abater um carro antigo não aumenta o valor no caso do Spring. Somando o apoio ao posto de carregamento, uma família elegível pode ter carro e wallbox com uma ajuda total perto de 12 mil euros.
O paradoxo: o salário mínimo fica de fora
Foi o Jornal de Notícias a levantar a questão. Em 2026, o salário mínimo nacional é de 920 euros, pagos 14 vezes: 12.880 euros por ano. É mais do que o limite de 11.572 euros. Na prática, um trabalhador que viva só com o salário mínimo pode não cumprir o critério de rendimento, a menos que beneficie da tarifa social de energia.
Falta saber como será calculado o rendimento do agregado. A diferença entre rendimento individual, rendimento por adulto equivalente ou rendimento total da família muda completamente quem fica dentro ou fora. É esse o pormenor que vai decidir o alcance real da medida.

O que ainda não se sabe
- data de abertura das candidaturas (aponta-se para 2027);
- se os elétricos usados são elegíveis;
- se há preço máximo para o carro;
- se o comprador tem de adiantar o valor total ou se o apoio é descontado no stand;
- como é contado o rendimento do agregado familiar.
💡 Dica do Freire
Fiz 100 km com o Spring entre Oeiras, Estoril e Lisboa: é um carro para cidade, com cerca de 170 a 180 km de autonomia real no uso misto. Se está a pensar candidatar-se, comece já por duas coisas: confirme se tem direito à tarifa social de energia e veja onde vai carregar o carro em casa. Com só 20 mil apoios para mais de um milhão de famílias, quem tiver a papelada pronta no dia da abertura sai na frente.
🎥 Veja o nosso test drive completo do Dacia Spring
Fontes: Ministério do Ambiente e Energia, citado pelo ECO (30/10/2026) e pela Razão Automóvel (31/10/2026); Jornal de Notícias (31/10/2026); configurador Dacia Portugal (preço consultado a 31/10/2026); salário mínimo 2026: DECO Proteste. Fotos: Motores e Ação.
Atitude fala mais alto. — Freire Neto | Motores e Ação desde 2002










