Leapmotor B10: a aposta elétrica da Stellantis

Stellantis, LeapMotor
Leapmotor B10, SUV elétrico da Stellantis, durante test drive do canal Motores e Ação

A Stellantis não trouxe o Leapmotor B10 para o Brasil para fazer número. Trouxe para vender.

Peguei o volante do B10 ao lado de Edward Sousa e a primeira impressão é a que fica: este é um carro construído para uma conta específica — a do brasileiro que quer entrar no elétrico sem pagar preço de importado de luxo. O resto do texto explica por que essa conta pode dar certo.

Uma versão só, e isso é uma decisão estratégica

O B10 chega ao Brasil em versão única, 100% elétrica. Não há escolha de bateria, de motorização ou de pacote de acabamento. Em mercados como Tailândia e Malásia, a Leapmotor oferece o modelo em três níveis, com opção de bateria maior de 67,1 kWh. Aqui, não.

A escolha brasileira foi combinar o motor mais potente da gama com a bateria menor. É uma decisão que privilegia sensação de dirigibilidade e preço de etiqueta em vez de autonomia — e que faz sentido para um carro pensado como uso urbano e metropolitano.

Preço público oficial: R$ 182.990, em toda a rede.

O que move o B10

Motor elétrico síncrono de ímãs permanentes montado no eixo traseiro — detalhe que a maioria dos rivais chineses nesta faixa não oferece, já que trabalham com tração dianteira. São 218 cv e 240 Nm (24,5 kgfm), entregues praticamente na hora em que o pé toca o acelerador.

A bateria é de 56,2 kWh, química LFP, com a célula integrada diretamente ao monobloco — a chamada tecnologia cell-to-chassis. Não é só marketing: eliminar a caixa intermediária da bateria melhora a distribuição de peso e aumenta a rigidez estrutural. Sente-se na estrada.

Autonomia: 288 km pelo ciclo Inmetro. É o número honesto e é o ponto fraco declarado do carro. Pelo ciclo WLTP europeu, o mesmo conjunto marca 361 km.

Três modos de condução: Confort, Standard e Sport. Dá para ajustar separadamente a intensidade da frenagem regenerativa, o Auto-Hold e o assistente de descida.

Recarga: aqui o B10 devolve o que tirou na autonomia

Este é o dado que muda a conversa. O B10 aceita recarga rápida em corrente contínua no padrão CCS2 a até 140 kW — e vai de 30% a 80% em 16 minutos. Em corrente alternada, padrão Type 2, aceita até 11 kW.

Autonomia curta com recarga muito rápida é um desenho de projeto, não um defeito acidental. Quem roda na cidade e tem wallbox em casa praticamente nunca vai encostar no limite. Quem viaja com frequência vai sentir.

Ficha técnica

ItemDado
CarroceriaSUV, 5 portas, 5 lugares
PlataformaArquitetura LEAP 3.5
MotorElétrico síncrono de ímãs permanentes, eixo traseiro
Potência218 cv
Torque240 Nm (24,5 kgfm)
TraçãoTraseira
CâmbioAutomático de uma velocidade
Bateria56,2 kWh, LFP, cell-to-chassis
Autonomia288 km (Inmetro) / 361 km (WLTP)
Recarga DCCCS2, até 140 kW — 30% a 80% em 16 min
Recarga ACType 2, até 11 kW
Comprimento4.515 mm
Largura1.885 mm
Altura1.655 mm
Entre-eixos2.735 mm
Porta-malas405 L (mais de 1.600 L com bancos rebatidos)
Compartimento dianteiro21,5 L
RodasLiga leve, aro 18″
Garantia4 anos, com opção de extensão de 1 ou 2 anos
PreçoR$ 182.990

O que vem dentro

O interior é onde o B10 tenta ganhar a comparação no showroom.

Multimídia e instrumentos

  • Central Leap One de 14,6″ com chip Snapdragon 8155 da Qualcomm
  • Quadro de instrumentos personalizável de 8,8″, fixado na coluna de direção — move-se junto com a regulagem do volante
  • Apple CarPlay e Android Auto sem fio
  • Navegador nativo com internet própria, independente do celular
  • Loja de aplicativos embarcada
  • Atualizações remotas OTA
  • Quatro portas USB (2 USB-C e 2 USB-A) e carregador por indução desligável

Conforto

  • Teto solar panorâmico com cortina elétrica acionável por comando de voz
  • Revestimentos hipoalergênicos com certificação OEKO-TEX e espumas de múltiplas densidades
  • Ar-condicionado automático
  • Maçanetas embutidas
  • 22 porta-objetos distribuídos pela cabine

Acesso

  • Chave digital pelo smartphone: o carro detecta a aproximação e destrava sozinho, sem tirar o aparelho do bolso
  • Cartão NFC no console central como alternativa
  • Senha numérica personalizável na multimídia

Segurança — sete airbags e ADAS nível 2 Dois frontais, dois laterais, dois de cortina e um central entre os bancos dianteiros. O pacote de assistências traz centralização de faixa, alerta de colisão frontal, frenagem autônoma de emergência, detecção de ponto cego, aviso de abertura de porta, aviso e assistente de permanência em faixa, aviso de colisão traseira, alerta de tráfego cruzado traseiro com frenagem autônoma e alerta de fadiga e distração do condutor por câmera.

Concorrentes

O B10 disputa a faixa dos SUVs elétricos médios com preço abaixo dos R$ 200 mil. Os rivais diretos são os chineses que já construíram rede no Brasil — BYD Yuan Plus à frente deles — além das ofensivas de GWM e Chery no mesmo território.

A comparação mais dura é justamente com o Yuan Plus: a BYD leva vantagem em autonomia e em rede consolidada; o B10 responde com tela maior, mais potência e recarga mais rápida.

Mas o adversário mais perigoso do B10 talvez nem seja elétrico. Na faixa dos R$ 180 mil o consumidor brasileiro encontra SUVs médios a combustão bem estabelecidos — e é dele que a Leapmotor precisa arrancar o cliente.

A rede é a variável que decide tudo

Aqui está o dado que sustenta ou derruba a aposta. Em junho, a Leapmotor tinha 38 concessionárias no Brasil e anunciou a abertura de 20 novas lojas em dois meses — ritmo de um ponto de venda a cada três dias. A meta é mais que dobrar a rede e estar presente nos 26 estados e no Distrito Federal até o fim de 2026.

Some-se a isso a estrutura de pós-venda da Stellantis, com cinco galpões de componentes em pontos estratégicos do continente.

E há o passo seguinte: B10 e C10 serão produzidos no Polo Automotivo de Goiana, em Pernambuco. A Stellantis também confirmou que desenvolve a primeira tecnologia REEV Flex do mundo, liderada pelo time regional. Em 2027 chega o C16, SUV de seis lugares, importado.

Dica do Freire — Especialista:

Repare no que a ficha técnica não diz em voz alta: o B10 tem motor traseiro. Num segmento em que praticamente todos os rivais chineses de entrada trabalham com tração dianteira, colocar o motor atrás muda o comportamento do carro na saída de curva e na aceleração — o peso transfere para o eixo que traciona, em vez de aliviar dele. Combine isso com a bateria integrada ao monobloco, que baixa o centro de gravidade, e você entende por que o carro parece mais assentado do que o preço sugere.

O ponto cego do projeto é outro, e é honesto reconhecê-lo: 288 km de autonomia Inmetro é pouco para viagem. Só que a Leapmotor compensou onde importa — 16 minutos de 30% a 80%. É uma engenharia de decisão, não um erro. O B10 foi desenhado para quem carrega em casa e roda na cidade, e cobra por isso um preço que nenhum elétrico com essa lista de equipamentos cobrava no Brasil.

VEJA TAMBÉM:

A minha leitura: se a rede continuar crescendo neste ritmo e o preço seguir agressivo, o B10 tem tudo para se tornar o elétrico mais vendido da Stellantis no Brasil. A conta que a marca fez está certa. Falta executá-la. E como Edward Sousa disse no vídeo, para ter um carro elétrico é preciso preparar e ter uma estratégia de abastecimento e um planjemaneto de recarga concreto. Não vale a pena arriscar.

Atitude fala mais alto. — Freire Neto | Motores e Ação desde 2002

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